sábado, 25 de abril de 2009

Tirei algumas coisas da caixa e dei início ao processo de arrumação do meu quarto. Porta-retratos, fotos para colocar nos porta-retratos, mural, fotos para colocar no mural, ursinhos, livros, enfeites. Sentada no chão, no meio de todas aquelas caixas de papelão e aqueles enfeites percebi que eu estava crescendo, tanto fisicamente como mentalmente, olhei para a foto com Fernando, eu , vestida de princesa, no meu mundo de faz de conta comemorando meus 5 anos. Pequena, de cabelos lisos escorridos, olhos cor de mel que sempre lembraram duas amêndoas, morena de praia, queimada como uma índia, com dentes ainda separados e a felicidade cativante de uma criança. Olhei para outra foto, muitos anos depois. Eu, indo para meu primeiro dia de faculdade, cabelos médios, castanhos escuros, lisos escorridos, os mesmos olhos cor de mel como amêndoas, um pouco mais pálida, devido a falta de praia e o pouco tempo para piscinas, vestida de branco, pronta para encarar o mundo real. Toda criança quer crescer, e todo adulto quer voltar no tempo. Antes eu podia chamar o Peter Pan e viajar com ele para a Terra do Nunca, hoje a única coisa que eu posso é pedir a Deus para me dar segurança e guiar meus passos. Nunca sei se minha escolha é a correta, ou se viro naquela esquina como sempre, se paro para tomar meu café enquanto leio um livro ou o jornal, ou se fico em casa e durmo um pouco mais debaixo do cobertor em um dia de frio. Coloquei minhas fotos preferidas nos porta – retratos, outras no mural. Um desenho que minha priminha, Luíza, fez quando eu sai de Minas. Organizei meus livros preferidos em uma estante, DVDs, CDs, alguns jogos e uns enfeites como fadinhas, borboletas e estrelinhas.
Guardei alguns ursos embaixo, na parte do meio do guarda – roupas, em cima coloquei caixinhas de música, caixas decoradas onde estavam cartas, bilhetes, algumas fotos, poemas, em outras guardava brincos, cordões, pulseiras, presilhas e outras coisas do tipo. Peguei meus perfumes, cremes, produtos de banho, pentes e escovas, toalhas, escova de dente, fio dental e todos os outros produtos para higiene bucal, até porque como uma futura dentista deveria me preocupar com minha própria saúde bucal, e fui arrumar meu banheiro. Organizei tudo perfeitamente, tudo como eu gostava. Voltei para o quarto, forrei a cama e coloquei todos os travesseiros e almofadas possíveis e imagináveis.
Três, dois, um!
Fiz uma contagem regressiva mentalmente e me joguei na cama em seguida. Por um momento senti falta de Luíza, aquela pirralhinha de quatro anos que sempre pulava em cima de mim.
"Fala: Eu sou uma piscininha, Mari!’’ - Ela pedia.
"Eu sou uma piscinha, Lu!’’ – Eu respondia. E assim ela pulava em cima de mim como se tivesse pulando em uma piscina, dando gargalhadas e gargalhadas.
Marília, vai tomar banho pra jantarmos na casa da sua vó! – Minha mãe gritou interrompendo meus pensamentos.
Peguei a primeira roupa que vi pela frente, um vestido amarelo com uma barra preta embaixo, uma sandália estilo gladiador preta e fui tomar meu banho. Sai rápido, afinal eram 21:10 e vovó como sempre serve o jantar as 22:00 em ponto. Me arrumei, penteei os cabelos, passei meu perfume e "voilà’’. Desci as escadas e esperei meus pais na sala enquanto assistia a um programa de TV que me deu sono.
Desceram logo em seguida, minha mãe me elogiando e dizendo que fazia tempo que não me via com aquele vestido, e meu pai como sempre protetor dizendo que estava ficando curto demais.
Saimos de casa, minha mãe trancou a porta enquanto meu pai ligava o carro, sentei no banco de trás. E fomos em direção a casa de minha vó.
Chegamos. Vovó estava na cozinha terminando de preparar o jantar com minha tia, meu avo, meu tio e os gêmeos na sala assistindo ao futebol, Júlia, minha prima, enfiada no quarto mexendo no computador.
Marília, como você cresceu! – Disse minha tia enquanto apertava minhas bochechas.
De dois em dois meses meus pais vinham visitar minha vó, e de dois em dois meses eu ouvia essa frase e minha bochechas eram massacradas. É, eu cresci. Afinal já estava prestes a fazer dezoito anos, a ganhar meu próprio carro e guiar minha vida.
Eu apenas sorri e abracei todos na sala. Júlia desceu e todos nos sentamos ao redor daquela mesa gigante que quase nunca conseguia ficar completa.

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©2007 '' Por Elke di Barros