sábado, 25 de abril de 2009

Segundo Capítulo - A Faculdade

Início do segundo ano letivo da faculdade, primeiro da ‘’ nova ‘’ faculdade.
Primeiro dia de aula e eu com aquela insegurança, afinal todo mundo já se conhecia, menos eu.
Para minha sorte Júlia também estudava naquela faculdade, não no mesmo curso, fazia direito, mas era , ao menos, uma companhia nos tempos vagos ou alguém para me apresentar a faculdade em si.
6:00 e o relógio despertou. Acordei animada, mas com aquele receio. Tomei meu banho, coloquei meu melhor perfume. Penteei os cabelos e me maquiei de leve. Vesti uma calça branca e uma blusa da mesma cor. Desci para tomar meu café, meu pai já estava sentado no sofá, vendo jornal e tomando seu café, enquanto minha mãe estava na cozinha preparando meu suco.
Nossa, quanta mordomia! – Brinquei, afinal não era sempre que minha mãe acordava cedo para fazer meu café da manhã.
Tomei meu suco de laranja e escutei minha prima buzinar, corri para escovar meus dentes. Não queria atrapalhar meu pai, afinal a faculdade era no sentido contrário do trabalho dele e minha casa era caminho para minha prima ir a faculdade, então não tinha problema nenhum pegar carona até completar meus dezoito aninhos.
Desci apressada, dei dois beijos nos meus pais e me despedi, como sempre fiz.
Minha prima ligou o carro, aquele frio na barriga subiu e ela deu a partida.
Coincidência ou não, mas nossos horários batiam praticamente todos os dias, graças a Deus. Menos na Quinta, dia que ela saia uma hora mais cedo, então eu deveria voltar de ônibus ou arrumar companhia até minha casa.
Fomos ouvindo música, enquanto ela falava e falava da faculdade, dos professores, dos alunos, das festas. A cada palavra que saia da boca dela eu abria um sorriso e me empolgava mais e mais com minha nova ‘’ Segunda casa ‘’.
Chegamos! – Ela disse enquanto estacionava o carro em uma das vagas do enorme estacionamento.
E aquele frio na barriga tomou conta de mim novamente. Entrei na faculdade, a seguindo, ela cumprimentou o porteiro e algumas outras pessoas que estavam presentes, eu apenas sorri e balancei a cabeça mostrando minha educação.
A faculdade era dividida em prédios, parecia um condomínio, tinha alguns restaurantes, a biblioteca central, banheiros além de uma sala que era a secretaria. Os prédios não eram muito grandes horizontalmente, porém enormes verticalmente. Havia chegado a hora de me separar da minha guia turística, o prédio dela ficava uns dois prédios antes do meu. Ela entrou e lá segui, sozinha, até a ‘’ minha nova área ‘’.
Entrei, minha primeira imagem eram várias e várias pessoas de branco, me lembrei do ano novo que passei em copacabana com minha família. Meu prédio era dividido em medicina e odonto, isso explicava a quantidade de ‘’ mães de santo ‘’ no prédio.
Verifiquei qual sala seria minha primeira aula, e subi. Olhei pelo vidro da porta, devia Ter umas 20 pessoas no máximo. Sentei na terceira fileira, no canto. Ao meu lado se sentou uma menina, um pouco acima do peso, de óculos. Os cabelos eram simplesmente lindos, cachos feitos e loiros. Encantadores olhos azuis se escondiam debaixo dos óculos fundo de garrafa. A roupa branca a deixava ainda mais gordinha. Parecia ser quieta, só parecia. Ao longo da aula começamos a conversar, ela me fez um resumo de toda a turma e dos professores. Seu nome era Clara, tinha 18 anos e era uma das mais inteligentes de toda a turma. Me apresentou a algumas pessoas, dentre elas Maria Eduarda, era alta, macérrima e negra. Um contraste engraçado com Clara, que era baixinha, acima do peso e bem branca. Duda, seu apelido, foi modelo na adolescência, mas tinha deixado isso de lado. Se orgulhava das suas raízes, seus cabelos afro, conhecidos como black power, sempre chamavam atenção. Ela os usava com uma faixa caida de lado, o que era um charme. Tinha 19 anos, porém aparentava mais. Era uma mistura de determinação e pontualidade morando no mundo fashion, e Miguel, seu namorado, era, também, muito alto, olhos cor de mel, com seus braços musculosos assustava qualquer um. Mas isso não escondia o doce de pessoa que tinha por baixo daquele corpo sarado. Tinha sido instrutor da academia por um bom tempo, enquanto não decidia o que fazer de verdade, era o mais velho da turma, com seus 22 anos, Henrique, era apelidado de pinsher, mesmo sendo o mais baixinho e magrinho sempre estava invocado. Tinha cabelos castanhos escuros e conseguia ser mais branco que Clara. Adorava música e carregava seu Ipod para cima e para baixo. Mesmo sendo o irritadinho da turma vivia fazendo piada com tudo e vivia com um sorriso no rosto. Tinha 20 anos com carinha de 16. Clara, além de todas as característica citadas tinha um coração sem igual. Posso dizer que foi a melhor amiga que tive desde que sai de Minas, sempre presente. Ela tinha uma risada engraçada e cativante, mesmo estando acima do peso se vestia muito bem e tinha lá suas quedinhas por Henrique.
Me identifiquei logo de cara com eles, tanto que no primeiro dia já saimos pra almoçar juntos. Liguei para minha mãe e avisei que iria sair com uns novos amigos, ela ficou um pouco assustada, com medo, afinal não conhecia as pessoas, mas deixou. Lá fomos nós de carona com Miguel. Júlia, minha prima, disse que ia ficar esperando um ‘’ amigo’’. Lá fomos nós, pra um restaurante ali perto mesmo. Enquanto comíamos eles me contavam fatos engraçados ocorridos na faculdade, as pérolas da turma, as piadas dos professores, entre outras coisas.
Algumas semanas se passaram e eu já estava totalmente incluída naquela faculdade, já conhecia bastante gente e já era parte daquele grupo. Uma parte vela, e põe vela nisso.
É, eu era totalmente vela naquele grupo. Até que decidiram encontrar alguém pra mim.
Eu não precisava de ninguém, eu estava bem daquele jeito, solteira. Queria me dedicar aos estudos e só. Mas minhas desculpas não foram suficientes, eles tinham que encontrar alguém pra mim, até que, por um descuido meu, comentei com Clara que tinha um menino na classe que chamava minha atenção, fazia apenas uma matéria comigo, seu nome era Tales. Não era bonito, mas seu jeito, sua voz, não sei, alguma coisa nele despertava algo mais. De vez em quando trocávamos olhares, e eu desviava meu olhar para o quadro. Clara já tinha feito algumas matérias com ele, não sabia muito a respeito, até porque ele sempre fora muito quieto.
Tales, quer sair com a gente Quinta? – Pergunta Clara.
Sair com a gente? O que ela está fazendo? – Pensei comigo mesma.
Ele aceitou e combinaram o bar. Todo mundo estava feliz com aquela história, mas alguém me perguntou o que eu queria? O que eu achava daquilo tudo?
Não, eu não conseguia parar de pensar no Fernando desde que coloquei meus pés novamente no Rio, como iria conseguir ficar com alguém que não fosse ele? Que não tivesse os mesmos olhos dele?
Marília, de uma chance para o menino, afinal voce está no Rio há um mês e ainda não encontrou Fernando! – Diziam juntos o anjinho e o diabinho que carregamos nos ombros.
É, eu precisava dar uma chance ao Tales, precisava dar uma chance a mim mesma.
Quinta feira, fizemos o mesmo trajeto, faculdade – bar. Convidei Júlia, mas ela iria ficar na faculdade estudando para prova de Sexta.
Chegamos no mesmo bar, na mesma mesa, chamamos o mesmo garçon, porém agora tinha um copo a mais na mesa. E era esse um copo que me assustava, não com o ‘’ali e agora’’, mas com o que aconteceria depois. E se desse certo? Se desse muito certo a ponto de superar as minhas expectativas com Fernando? E se desse errado? Se desse tão errado a ponto de me machucar novamente, como me machuquei com Caio? Eu não queria arriscar, nunca fui de brincar com a sorte, nem no jogo, muito menos no amor.

Tirei algumas coisas da caixa e dei início ao processo de arrumação do meu quarto. Porta-retratos, fotos para colocar nos porta-retratos, mural, fotos para colocar no mural, ursinhos, livros, enfeites. Sentada no chão, no meio de todas aquelas caixas de papelão e aqueles enfeites percebi que eu estava crescendo, tanto fisicamente como mentalmente, olhei para a foto com Fernando, eu , vestida de princesa, no meu mundo de faz de conta comemorando meus 5 anos. Pequena, de cabelos lisos escorridos, olhos cor de mel que sempre lembraram duas amêndoas, morena de praia, queimada como uma índia, com dentes ainda separados e a felicidade cativante de uma criança. Olhei para outra foto, muitos anos depois. Eu, indo para meu primeiro dia de faculdade, cabelos médios, castanhos escuros, lisos escorridos, os mesmos olhos cor de mel como amêndoas, um pouco mais pálida, devido a falta de praia e o pouco tempo para piscinas, vestida de branco, pronta para encarar o mundo real. Toda criança quer crescer, e todo adulto quer voltar no tempo. Antes eu podia chamar o Peter Pan e viajar com ele para a Terra do Nunca, hoje a única coisa que eu posso é pedir a Deus para me dar segurança e guiar meus passos. Nunca sei se minha escolha é a correta, ou se viro naquela esquina como sempre, se paro para tomar meu café enquanto leio um livro ou o jornal, ou se fico em casa e durmo um pouco mais debaixo do cobertor em um dia de frio. Coloquei minhas fotos preferidas nos porta – retratos, outras no mural. Um desenho que minha priminha, Luíza, fez quando eu sai de Minas. Organizei meus livros preferidos em uma estante, DVDs, CDs, alguns jogos e uns enfeites como fadinhas, borboletas e estrelinhas.
Guardei alguns ursos embaixo, na parte do meio do guarda – roupas, em cima coloquei caixinhas de música, caixas decoradas onde estavam cartas, bilhetes, algumas fotos, poemas, em outras guardava brincos, cordões, pulseiras, presilhas e outras coisas do tipo. Peguei meus perfumes, cremes, produtos de banho, pentes e escovas, toalhas, escova de dente, fio dental e todos os outros produtos para higiene bucal, até porque como uma futura dentista deveria me preocupar com minha própria saúde bucal, e fui arrumar meu banheiro. Organizei tudo perfeitamente, tudo como eu gostava. Voltei para o quarto, forrei a cama e coloquei todos os travesseiros e almofadas possíveis e imagináveis.
Três, dois, um!
Fiz uma contagem regressiva mentalmente e me joguei na cama em seguida. Por um momento senti falta de Luíza, aquela pirralhinha de quatro anos que sempre pulava em cima de mim.
"Fala: Eu sou uma piscininha, Mari!’’ - Ela pedia.
"Eu sou uma piscinha, Lu!’’ – Eu respondia. E assim ela pulava em cima de mim como se tivesse pulando em uma piscina, dando gargalhadas e gargalhadas.
Marília, vai tomar banho pra jantarmos na casa da sua vó! – Minha mãe gritou interrompendo meus pensamentos.
Peguei a primeira roupa que vi pela frente, um vestido amarelo com uma barra preta embaixo, uma sandália estilo gladiador preta e fui tomar meu banho. Sai rápido, afinal eram 21:10 e vovó como sempre serve o jantar as 22:00 em ponto. Me arrumei, penteei os cabelos, passei meu perfume e "voilà’’. Desci as escadas e esperei meus pais na sala enquanto assistia a um programa de TV que me deu sono.
Desceram logo em seguida, minha mãe me elogiando e dizendo que fazia tempo que não me via com aquele vestido, e meu pai como sempre protetor dizendo que estava ficando curto demais.
Saimos de casa, minha mãe trancou a porta enquanto meu pai ligava o carro, sentei no banco de trás. E fomos em direção a casa de minha vó.
Chegamos. Vovó estava na cozinha terminando de preparar o jantar com minha tia, meu avo, meu tio e os gêmeos na sala assistindo ao futebol, Júlia, minha prima, enfiada no quarto mexendo no computador.
Marília, como você cresceu! – Disse minha tia enquanto apertava minhas bochechas.
De dois em dois meses meus pais vinham visitar minha vó, e de dois em dois meses eu ouvia essa frase e minha bochechas eram massacradas. É, eu cresci. Afinal já estava prestes a fazer dezoito anos, a ganhar meu próprio carro e guiar minha vida.
Eu apenas sorri e abracei todos na sala. Júlia desceu e todos nos sentamos ao redor daquela mesa gigante que quase nunca conseguia ficar completa.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Primeiro capítulo - Continuação

Minha mãe me chamou e fui. Entrei no carro observando pela janela a velha nova rua que ia ficando para trás.
Pouco tempo depois chegamos a nova casa. Era grande, muito grande. Na verdade era enorme só para nós três, ainda mais comparando com a casinha anterior, de minas. Meus pais já tinham começado a mudança um tempo antes, estava tudo no lugar, faltava comprar alguns móveis, mas não liguei pra isso. A entrada parecia nos levar a casas gigantes de filme, e realmente nos levava. Portões automáticos brancos, um enorme jardim com todos os tipos de flores possíveis e imagináveis, já que meus pais sempre foram ligados a natureza, uma piscina que ainda estava vazia, um corredor largo que dava para parte de trás da casa, um lounge confortável, perto da porta de entrada. A sala era na verdade um salão, o lugar onde logo estaria sentada, conversando com meus pais enquanto assistiam jornal e tomavam café, no sofá, e eu meu suco de laranja, sentada no outro sofá um pouco mais largada. Os sofás novos eram realmente perfeitos e minha mãe como decoradora arrasara mais uma vez. A sala parecia uma dessas de revista, na verdade a casa inteira ficaria assim um mês depois, com a chegada de todos os outros móveis. O Banheiro era logo após a sala, era preto e branco, e na parede logo acima da banheira havia uma imagem, como se fosse um desenho, de uma menininha ensaboada, com espuma nos cabelos e rindo. Todos se apaixonavam por aquela imagem, realmente o banheiro era elegante e ao mesmo tempo descontraído. Nossa cozinha era estilo americana, por um pequeno murinho a cozinha era dividida da sala de jantar, onde nós nos perdíamos. A mesa era para seis pessoas, raramente três sentavam nela. Da sala de jantar tinha uma porta enorme de vidro, que dava pra parte de trás da casa. Era praticamente a continuação do jardim, tinha um lounge menor do que o da entrada. No canto seria a nova área, com máquina de lavar e essas coisas. Subi as escadas da sala, admirando a ampla casa, era uma escada de madeira, grande, larga. Fazia um barulhinho no terceiro degrau, de baixo para cima, e isso sempre me assustava. Em cima eram os dois quartos e uma suíte, uma outra sala um pouco menor do que a anterior, que ninguém nunca iria ficar, e um banheiro, que no caso, era só pra mim. Meus pais ficaram na suíte, logicamente, e eu no quarto do meio, o quarto restante logo virou um escritório, meio biblioteca e porta trecos. Tudo de velho que minha mãe guardava meu pai tacava lá. "Casa nova, cidade nova, vida nova!" Ele dizia.
Meu sempre foi um médico muito bem sucedido, um cirurgião plástico, na verdade. Minha vó ficou doente e tivemos que ir para Minas. Adorava todo aquele pão de queijo todo dia, e aquele jeitinho do mineiro falar. Meu pai trabalhou na clínica do irmão, já que a família toda é dessa área médica. Minha mãe reclamou no início, não queria ficar longe de praia e de toda sua vida aqui no Rio de Janeiro, mas depois se acostumou. Minha vó se recuperou, mas continuamos lá. Dez anos depois ela faleceu, e com isso meus pais fizeram planos de volta, demorou dois anos para que o retorno realmente acontecesse, mas aconteceu. Metade de mim falava que sim, a outra metade falava que não. É claro que eu queria voltar, praia, festas, novos amigos e claro, reencontrar o Fernando. Mas por outro lado, não, eu não queria voltar, abandonar meus amigos, minha família, meus tios, meus estudos?
Minha faculdade era particular, uma das melhores de todo o Brasil, estava fazendo odontologia. Pedi transferencia para a faculdade do Rio, e claro, deu tudo certo. Meus amigos fizeram festa de despedida, e até hoje me visitam.
Sempre tive mais amizades masculinas do que femininas, Fernando não foi o único, apenas abriu o caminho para minhas amizades de boné, bermudão, camisa e chinelo, que falam grosso, cospem e caçam as partes íntimas em público, andam de skate e gostam de "pegar geral". Costumava descrever assim meus amigos homens. Claro que também tinham as meninas, na verdade nosso grupo era misto, mesmo contendo mais meninos a presença das meninas era forte também. Gustavo, Luana, Marcele, Caio, Lucas, Rafael e eu, que saudades disso tudo, de sair de casa e já encontrar todo mundo de bicicleta me esperando. Parecia coisa de novela mexicana, Luana era irmã de Lucas e gostava de Rafael, Rafael gostava de Marcele que pegava o Gustavo, que era a fim de mim. Eu por minha vez continuando a confusão gostei do Lucas e depois namorei o Caio por um ano, foi sério, mas terminamos. Eu tinha 15 na época, era uma menina ainda e não tinha certeza dos meus sentimentos, Caio gostava de mim, gostar não é amar, acho que confundimos a grande amizade com a paixão, mas quando chegou ao fim, tudo voltou a ser como antes, achei que fosse impossível, mas não foi. Não estive lá para dar detalhes do resto da história, mas hoje sei que Marcele e Rafael estão casados e sempre aparecem por aqui.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Primeiro Capítulo - O RETORNO

Ontem, hoje e sempre.
A frase que mais define minha vida ao lado de Fernando.
Aquela peste que eu tinha deixado para trás quando fui morar no interior. Brigávamos mais do que brincávamos, eram horas e horas reclamando, puxando cabelo, mordendo um ao outro. Foram 6 anos de convivência com aquele pirralho, e por mais chato que ele fosse ... me fez muita falta.
E por doze anos minhas lembranças foram fotos e uma cartinha que ele fez me chamando de anja do mau. Não sei porque, mas toda criança de 6 anos se sente mal ao ser chamada assim, mas no fundo no fundo, eu gostava.
Tentamos manter contato, mas minha mãe perdeu o telefone dos pais de Fernando, e as cartas não eram retornadas, já deviam Ter mudado de endereço.
Até que retornei para minha cidade natal, tudo havia mudado. Minha casa de infância já não era mais a mesma. O portãozinho de madeira agora era portões gigantes brancos, com camera de segurança, alarme e outras tecnologias para garantir a segurança da nova família.As paredes amarelas da entrada deram lugar a paredes verde limão. O enorme jardim de minha mãe cedeu espaço para uma grande piscina e uma churrasqueira, nosso telhado se transformou em piso para o segundo andar construído. Porém o mais triste, que me arrancou uma lágrima acompanhada de um sorriso por lembrar todos os meus momentos bons, foi não ver o meu balanço na árvore. Pois já não havia mais árvore, era agora o lugar dos cachorros da nova família.
Olhei em volta, a rua estava como nova, carros caros, com pinturas chamativas estacionavam ali. Caminhei um pouco mais, vi a casa de dona Ruth, uma senhora que morava poucas casas antes de Fernando, fazia um bolo de cenoura que era uma delícia! Falecera um dia antes do meu aniversário de 8 anos, nem pude me despedir.
Vi outras casas um pouco diferentes, algumas irreconhecíveis. O bairro havia ganho muito nome, e se tornou um dos melhores lugares para se viver. Andei um pouco mais, na verdade, corri, como sempre fazia até chegar na casa de Fernando. Encontrei muros e portões bem mais altos, tentei olhar pelo canto do portão. Consegui ver paredes brancas, mas a casa parecia estar fechada há muito tempo. Até que um cachorro veio em minha direção.
PINGO! – Gritei sorridente.
Não, não era Pingo, apesar de sua grande semelhança com o cachorro de Fernando. Pingo tinha uma mancha preta na orelha, e jamais esqueceria aquele olhar de quem pede um abraço ou quer passear. Era apenas um cachorro, um novo cachorro da vizinhança. Até que uma menininha, de cabelos curtos e encaracolados pegou seu cachorro e apenas sorriu correndo em direção a praça.
Ah! A praça, que saudades daquilo tudo, mesmo saindo dali tão pequena ainda lembrava nitidamente de todas minhas tardes naquele pedaço do céu infantil. Voltava da escolinha, pegava minha bicicleta e ia andar, me lembro que um dos dias mais felizes foi quando eu consegui andar na bicicleta de Fernando, sem rodinhas. Saimos para comemorar, tomamos sorvete na beira da praia a noite e fizemos castelinho na areia molhada. Voltamos para casa sujos, levamos metade da areia da praia em nossos cabelos, mas o que demos um ao outro naquela noite eu guardo até hoje, uma concha, bem frágil e pequena. A guardo com todo meu carinho, no colar que uso todos os dias.

 
©2007 '' Por Elke di Barros